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CARTAS A PERSONAGENS BÍBLICOS

Carta a “Paulo, apóstolo de Jesus Cristo por vontade de Deus”, (1ª. Parte)

 “JÁ NÃO SOU EU QUE VIVO, MAS É CRISTO QUE VIVE EM MIM” SL 88 - 13.01.12

O evangelho de Marcos, proclamado nesse ano B da Liturgia, nos coloca diante de Jesus que enfrenta e destrói o mal manifestado em doenças (febre na sogra, lepra, possessões do demônio - Mc 1,29-2,12). Havia uma lei da Pureza que no fundo, marginalizava as pessoas quanto a vida civil e religiosa. A compreensão judaica de então era que o enfermo só seria curado quando Deus lhe perdoasse os pecados. Jesus superou com palavras o obras essa mentalidade, curando e perdoando, isto é, revelando a potência de Deus que n’Ele habitava desbloqueando a conexão pecado e enfermidade.

                Dos males existentes havia também aquele do preconceito que numa dimensão mais profunda precisava ser debelado. Isso só seria possível assegurado-se o valor da fé, como entrega total e irrestrita a Deus. Esse trabalho era enorme e urgente por isso mesmo o Senhor Jesus não se prendia a nenhum lugar, tendo consciência de que muitos dele necessitavam, a ponto de ter afirmado: “Vamos às aldeias vizinhas, para que eu pregue também lá, pois para isso é que vim” (Mc 1,39).   Essa nova visão contagiou a muita gente de modo particular a ti, Paulo de Tarso, originário da Cilícia (At 22,3) comemorado neste mês de janeiro, celebrando tua conversão (25.01).

Na experiência feita na estrada de Damasco, quando estavas disposto a prender os cristãos – nome dado aos seguidores do “caminho” (At 11,20.26) - um novo horizonte se abriu, uma nova luz brilhou naquele encontro que marcara tua existência sobretudo na interrogação apresentada pelo ressuscitador:  “Saulo, Saulo por que me persegues?” (At 9,4).  Essa identificação de Jesus com os sofridos deste mundo podemos encontrar de forma explícita no julgamento final (Mt 25,31-46).

 Esse foi o início de um longo percurso entregue ao Mestre, como costumavas dizer: foste “conquistado por Jesus Cristo” (Fl 3,12) e tinhas consciência de que “o amor de Cristo é que nos impulsiona” (2 Cor 5,14). A descoberta da centralidade de Cristo para a salvação da humanidade foi tida como uma “conversão”, “queda do cavalo” quando na realidade o texto fala que caíste por terra (At 9,4). Tua história vocacional foi narrada pelo menos por três vezes, acrescentado elementos que enriquecem a compreensão da mesma (At 9,1-19; At 22,5-16; At 26,9-18).

Tendo se deixado laçar por Cristo, nem sempre foste aceito e reconhecido pelos judeus e cristãos devido teu passado de fidelidade ao judaísmo (Fl 3,5), mesmo que encantavas a muitos até que Barnabé te apresentou aos apóstolos em Jerusalém (At 9,20-30). Tuas idas àquela cidade, memória para a fé judaica-cristã, foram fundamentais para teu diálogo com Pedro e Tiago e os demais pilares da Igreja sobre o “evangelho” que recebeste (Gl 1,18; At 15,1-34; Gl 2,1-10). Por isso mesmo recebeste a incumbência de anunciar a Boa Nova aos pagãos. Para ti era claro a novidade: “Esta é a nossa tese: o homem se torna jsuto através da fé, independentemente da observância da Lei” (Rm 3,28). Esta reflexão foi reiterada na carta aos Gálatas: “Fomos justificados pela fé em Jesus Cristo e não pelas obras da Lei” (Gl 2,16). Certamente essa consciência era fruto de uma intimidade profunda que te permitias afirmar: “Fui crucificado com Cristo e já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20). Além do mais, te sentias “chamado desde o ventre materno (Gl 1,15),  apóstolo de Jesus Cristo por vontade de Deus” (Ef 1,1) e ministro do mistério de Cristo (Ef 3,1-4).

Justifica, portanto, teres declarado aos teus contemporâneos: “Ai de mim se não evangelizar” (1 Cor 9,16). E qual seria o conteúdo desse anúncio? “Nós pregamos Cristo crucificado,escândalo para os judeus e loucura para os gregos, mas para aqueles que são chamados, seja judeus ou gregos, pregamos Cristo potência de Deus e sabedoria de Deus” (1 Cor 1,23-24). Essa convicção tornou-se sempre mais profunda durante teus vinte anos de pregação itinerante, que chegaste a afirmar: “Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação, a angústia a perseguição, a fome, a nudez, o perigo, a espada? Mas, em tudo isso vencemos por aquele que nos amou” (Rm 8,35-37).

De fato, “Ele é a imagem visível do Deus invisível, gerado antes de toda criatura e por meio dele foram criadas todas as coisas” (Cl 1,15-16). É nele que “habita corporalmente toda a plenitude da divindade” (Cl 2,9). Armou sua tenda em meio a nós, tendo nascido de uma mulher, na plenitude do tempo, para nos resgatar da Lei, adotando-nos como filhos (Gl 4,4-7).

                Eis porque, concluo, tu antigo discípulo de Gamaliel (At 22,3) abraçaste a decisão de ser “tudo para todos” (1 Cor 9,22), tendo realizado várias viagens  a fim de comunicar tua experiência de fé significada no batismo: “Fomos batizados na sua morte [...] fomos sepultados com  ele na morte [...] Assim também vocês considerem-se mortos para o pecado e vivos para Deus, em Jesus Cristo” (Rm 6,3-4.11). De conseqüência, ensinaste que pelo batismo somos revestidos de Cristo, somos adotados como filhos de Deus (Gl 3,27). Portanto, novas criaturas que terão um comportamento diferenciado nas diversas relações (Cl 3,1-4,1-6). A passagem (no dia 15.01.12) da Cruz da Jornada da Juventude e do Ícone de Nossa senhora Mãe de Deus (Tehotókos, do grego) deixará para todos nós um forte convite a revisar nossa compreensão de Deus Pai, de seu Filho Jesus e de nossa vida cristã!                        

Pe. Limacedo Antonio

Pároco de Paudalho

 

 
 

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